ÚLTIMOS POSTS

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

AULA INTERDISCIPLINAR

MIGUILIM  ORIGINA O FILME MUTUM






Mutum é sobre dois Thiagos. Um deles tem dez anos e mora com sua família no interior de Minas Gerais. Um lugar tão seco quanto o sertão nordestino. Pobre, vive numa casa isolada, longe de cidades e escolas. Seu principal compromisso é brincar com o único amigo que tem, seu irmãozinho, Felipe. Uma rotina que o leva a um universo particular, onde pipocas viram brinquedo.
Este Thiago, no entanto, é um menino crescendo. Certo dia, seu tio o leva para um povoado distante para ser crismado. E é a partir daí que ele começa a enxergar o tamanho do mundo. Quando volta para casa, Thiago já tem outra visão do espaço que ocupa e percebe o perigo que está ao seu lado. É obrigado a ajudar o pai no campo, descobre a violência dentro de casa e tem que lidar com despedidas.
No original, Thiago se chama Miguilim. Ele é o protagonista da história que leva seu nome em Campo Geral, livro de Guimarães Rosa. O autor de difícil adaptação ganhou tradução peculiar nas mãos de Sandra Kogut. Mutum, o filme, herdou o nome do pedaço de terra onde vive o menino. No longa, estréia da diretora em filmes de ficção, Miguilim mudou de nome por causa de um segundo Thiago, o ator da história.
Thiago da Silva Mariz é um achado. Um pequeno líder de um elenco quase totalmente amador é capaz de um feito enorme. É a ele que Kogut entregou a tarefa de unir dois pontos distantes da obra de Guimarães Rosa: de um lado, a aridez da vida no campo com seus diálogos ríspidos e rudes; do outro, a delicadeza do olhar da criança, puro e apaixonado, cheio da emoção mais inocente, ávido por descobertas.
Mas, apesar da força da performance de Thiago, o que fazMutum realmente funcionar é o quanto seus realizadores estão sintonizados com um cinema humanista feito hoje em dia. O emocional ganhou reflexo na bela fotografia, onde a câmera está sempre em busca de um rosto, de um olhar, de uma expressão. Enquanto o clima árido se abrigou na montagem, com cortes brutos, secos, impiedosos.
A maior qualidade de Mutum é ser um cinema duro na forma como traduz a brutalidade da transformação e, ao mesmo tempo, sabe ser extremamente delicado com seu protagonista e com seu espectador.
Mutum EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaMutum (2007)
Sandra Kogut





Antes de qualquer coisa, o estranhamento proporcionado pelas figuras que habitam o profundo sertão. Numa paisagem árida e numa atmosfera que prima pela solidão e abandono, vive a família de Thiago, pai, mãe, avó, irmãos, e um tio que logo se vai, expulso por conta de ato que avilta a moralidade prescrita. O pai, secura e dureza na face, nos gestos de todo o corpo, no olhar desencantado com que apreende o mundo, encarna a sina do adulto esmagado pela pobreza, ausente das palavras afetuosas, distante da possibilidade de exercer um mínimo de alegria como afirmação de vida. A mãe, doçura e força na empreitada insana de cuidar dos filhos e suportar as dores de viver longe do homem que parece realmente desejar, enfrenta silenciosamente o sofrimento que lhe alcança com o selo do inevitável, buscando no enternecimento do contato com os filhos algum sentido para o seu existir. Restam, para contar esta história, as crianças. E é justamente das marcas imprimidas pelo infantil que vamos encontrar a centelha de esperança (e riso!) do qual todos – inclusive nós, cinéfilos – pareciam definitivamente afastados.
Muitos risos, na verdade. E de muitos atos, não fosse o próprio riso ato inaugural da criação (ao menos neste filme). O banho faceiro na cadela, o brincar de navio com a pipoca, a gargalhada conjunta, experimento disjuntivo das significações sofrentes e congeladas. Também a fantasia e fabulação nos momentos que antecedem o adormecer. Para Felipe, irmão com quem Thiago troca confidências e alguns terrores noturnos, sobrevêm a morte, manto que o abraça de supetão em virtude da absoluta impossibilidade de cuidados médicos adequados para curar uma infecção comezinha.(as cenas nas quais os irmãos se alcançam neste infortúnio, vivendo a dor sem esmorecer um instante que seja da sensibilidade e do carinho são muito fortes). Mas, e para Thiago, principal “mestre” da trama, o que está reservado?
Bem, neste aspecto o filme alcança sua maior intensidade e sabedoria. Thiago é menino estranho ao pai (que não se cansa de nomeá-lo negativamente), e testemunha silenciosa de um drama que afasta definitivamente seu tio paterno do convívio do lar – este, por sua vez, nutre por Thiago todo o amor e respeito que o menino parece esperar do pai. É também diferente e sonhador (as palavras da mãe evocam isso), mas não se nega a participar das ordenações de praxe: busca aprender a trabalhar no roçado, a conduzir o gado e ajuda nos trabalhos da casa. Mas, acima de tudo olha o mundo com curiosidade e avidez, passeia pelos cantos mais inóspitos e, ao final, experimenta a redenção possível: vai para a cidade (em companhia de um médico que faz o seu trabalho pelo sertão e o convoca para mais essa empreitada) para estudar e viver novos desafios. É também este médico que observa a dificuldade de Thiago enxergar, doando um objeto que fará o mundo ainda mais interessante: um par de óculos!
É no acompanhamento da trajetória de “Mutum-Thiago” - seus encantos e desencantos, fantasias, perplexidades com a loucura do mundo dos adultos, pequenas e doces alegrias no convívio com os seus – que o filme se mostra capaz de nos apaixonar. É certo, como já foi reconhecido, que tudo é mostrado pela ótica da criança, com toda a sua inocência-sábia. Mas não é apenas isso. Há também um recurso a um tipo de narrativa que (se não é) está muito próxima do poético: visões do mundo carregadas pela câmera e visão do protagonista se contaminam, doravante libertos de contar meramente uma história. Ao contrário, a cada cena somos como que transpassados por algo que é da ordem do visionário, apresentado nos ângulos inesperados dos rostos e paisagens, no modo sensível de caracterizar a relação dos personagens com a vida (e a morte), na produção de uma temporalidade que passa longe do tédio e lentidão dos dias e noites sertanejos.Temporalidade que se faz e refaz nos movimentos que testemunham a busca de Thiago em dar sentido às suas experiências.
Além disso, há a captação respeitosa das interpretações de cada ator (todas elas excelentes), e a manifesta intenção de provocar intensidades mais do que compreensão objetivante (a cena na qual a mãe, pressentindo a perda de Thiago, consegue dizer com palavras ternas a positividade de sua ida para a cidade, falando ao seu ouvido, enquanto em sua face se misturam todos os sentimentos que caracterizam esta vivência dilacerada, é, talvez, o melhor exemplo).
Por tudo isso “Mutum” é para ser visto e revisto. Quanto mais não seja para que possamos nos encontrar com nossos sertões. E também com a criança. Na última cena, Thiago, pouco antes de partir, faz uma última doação aos seus: Pede ao seu novo “tutor” os óculos para que possa contemplar, com a nitidez e o tamanho adequados, as imagens de cada um e do lugar do qual começa a se separar. Curiosamente o que vemos junto com ele, não vem de uma visão ocular mais acurada, mas daquilo que o seu coração constrói, no momento. É para uma construção semelhante que somos chamados.
Para fazer jus à doação que o filme nos traz.

SOBRE A ADAPTAÇÃO DA OBRA DE GUIMARÃES  ROSA A AUTORA DIZ:

"Sempre me senti íntima do Miguilim, como se o conhecesse muito bem."
Os personagens, sobretudo as crianças, se questionam muito sobre as noções do Bem e do Mal.
"É uma região onde a educação religiosa tem um papel importante. São comunidades fechadas, as regras são mais rígidas, e chegar numa relação mais íntima com eles foi um longo e demorado processo. Mas tem também o fato de que estamos falando da infância. Quando você é criança, as regras são com freqüência a coisa mais misteriosa do mundo, e é difícil entender o que é certo e o que é errado. A gente passa muito tempo se debatendo com isso e tem a sensação presente de que as regras são diferentes para os adultos e para as crianças. Quando você é criança, isso pode ser difícil de entender e muitas vezes parecer uma grande injustiça."



ACONSELHA-SE OLHAR EM http://www.mutumofilme.com.br/entrevista.htm O RESTANTE DA ENTREVISTA!

VALE DAR UMA CONFERIDA NO SITE E PESQUISAR VÍDEOS RELACIONADOS!
EXISTE TAMBÉM A POSSIBILIDADE DE FAZER DOWNLOAD DO FILME!


Por: Gelipe Goulart

Um comentário:

Galera 303 disse...

Quem leu o livro deve pelo menos dar uma olhada nos vídeos disponiveis!
E pra quem não leu...
é bom correr!